quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

mario quintana

"Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...”.
m. quintana

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Thanks, so much, 2010


A época mais propícia a retrospectivas sempre me instiga a parar e pensar nos meses que se passaram. Inevitável a comparação do “o que você fazia, pensava, tinha e desejava, nesse mesmo dia, no ano passado?”. Não vou me deter a comparações, apenas acrescentar um sinalzinho de somatório em tudo [de bom].

Não tem como fugir do clichezão e dizer o quanto 2010 acrescentou. Me fez crescer, me deu sabedoria e ao meu lado pessoas especiais. Nada seria mais justo do que usar este espaço para agradecer. Então, thanks, so much:

...à ele lá em cima. Por me tirar alguém especial só depois de ele ter vivido tudo o que tinha pra viver, ver filhos, netos e bisnetos, ensinar e deixar grandes lembranças. O sorriso do nonno sempre vai ficar.

...ao meu porto seguro, minha base, minha calmaria.meus pais me orgulham, e 2010 não mostrou nada diferente disso. amo-os.

...ao fê, pela semana de férias em Santa Catarina e a adrenalina de experimentar vários quilômetros por hora em uma cbr 600 quase à beira-mar.e pela parceria que só um irmão pode te dar.

...à maiarinha, minha gêmea siamesa, pela parceria em todas as manhãs de estágio, todos os trabalhos da faculdade, por todos os finais de semana de festa, pelo companheirismo aqui, na china ou em uma trilha de 17km. sem ela não sou.

...à mari, irmã que se mostra cada vez amiga, a amiga que Deus escolheu irmã. Pelos incansáveis e estressantes dias de semana em que nos aturamos nesse corrido 2010, e pelo amor-irmã que insiste em permanecer conosco.

...aos colegas do jornalismo parceiros de intercom: valeram aqueles dias, os pa-pan americano's , cada raio de sol e cada folhinha de grama daquela UCS.

...a todos que me ajudaram na produção do curta: sem o empenho, a coisa não sairia. ano que vem teremos orgulho do nosso filhinho pronto.

...colegas da cacism, vocês também entram aqui, pela experiência e companheirismo bom que existiu ao longo do ano inteirinho.

...a quem entrou na minha vida de uma forma mais intensa, mas sempre esteve nela.

...a quem, de alguma forma, saiu da minha vida. Levo comigo boas lembranças de tudo que vivi em qualquer momento.. carrego comigo tudo de bom e excluo de vez tudo de ruim. O resto é experiência.

..a todos que me somaram companheirismo, amizade, sorrisos, aprendizado e muita energia boa. aos especiais que conheci em 2010 e carregarei comigo pra vida.

Certamente 2010 está sendo finalizado com um saldo positivo. Ver uma pessoa que amo e não via há mais de quatro anos é especial demais. (ainda mais quando parece que a última vez que nos vimos foi na semana passada...) Passar os últimos dias do ano do lado da minha família é divino. Aproveitar uma tarde do lado das amigas de infância é nostálgico e maravilhoso. Sol, calor e o merecido descanso em um lugar onde amo estar, é tudo que eu queria.
Por isso, ao fim de tudo, eu posso dizer: thanks, so much, 2010. E que venham os próximos 365.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

os óculos do john ou o olhar do paul?

Novembro de 2010 vai ficar na história. De gaúchos, de paulistas, de brasileiros de todos os cantos. De loucos e fanáticos por música, por Beatles, por ele. Não tive a oportunidade de assistir, mas acredito que isso foi compensado por milhares de fãs que percorreram quilômetros, agüentaram dias e horas em fila e abaixo de sol. Tudo pra ver Sir. Paul McCartney.
Paul McCartney em Porto Alegre - 07.11.2010
Foto:  Leandro Ineu

Pelo que li e pude ouvir, o cara levou a galera ao delírio. Em solo gaúcho, parece ter sido muito mais – com o perdão do nosso bairrismo. “Ele podia subir no palco e fazer qualquer coisa, que todo mundo aplaudiria igual. Mas ele mostrou que vive disso e pra isso”, comentou o meu amigo Leandro, que esteve a pouco mais de 20 metros de um lendário beatle, naquela noite de sete de novembro. “Ver aquele cara fazer dos acordes mais simples aos mais complexos foi uma coisa mágica, ainda mais por todo o envolvimento que eu tenho com a música”, recordou...


Além dos acordes, algumas palavrinhas para os gaúchos soaram mágicas também. Ouvir ninguém menos que Paul McCartney dizer “Ah, eu sou gaúcho” é pra arrepiar da cabeça aos pés. E soltar um “tri legal” seguido de um “bah,tchê” então, é de soltar o grito preso na garganta e perceber que o cara veio mesmo pra conquistar. Quanto carisma. E, quanto fôlego pra agüentar simplesmente três horas em cima do palco, sem perder a energia... com seus bem vividos 68 aninhos.

Abro, agora, um vídeo do show em Porto Alegre. Me arrepia. Se tivesse essa oportunidade, só por essa música, já valia. A música que Paul fez pra Julian quando seu pai, Lennon, se separava de Cynthia, traz a minha infância de volta. Ouvir 50 mil vozes cantando em uníssono trouxe arrepios constantes. Hey Jude, a música que a mãe e a Camila cantavam pra mim, sempre vai ser a preferida.
Recompondo a nostalgia, o passeio pelos vídeos me fez presenciar a euforia de toda aquela gente, quando ouviu um Paul gaúcho se manifestar. Por isso, tenho que compartilhar aqui aquilo que eu gostaria de ter visto ao vivo.


Paul mostrou e comprovou porque é tão consagrado. Porque segue sendo essa lenda, e um dos caras mais sensacionais que o rock já viu. Por isso, como contou o Leandro, não era a toa que ao seu lado tinham crianças e avós dividindo o mesmo espaço.

Ah. Espero que esses 50 mil pares de olhos em Porto Alegre, e 66 mil em São Paulo, tenham cruzado ou sentido de verdade a emoção do olhar do Paul...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

maria

Maria perambula cheia de sacolas pelo centro da cidade. Morena, estatura baixa e um pouco acima do peso, cabelos despenteados, as calças sujas e os sapatos rasgados. Mas quase sempre sorrindo. Só não sorri quando conta, indignada, a perversão dos policiais e dos bandidos vista por seus olhos.

O quarto de Maria é a parede de uma farmácia e a calçada de uma das principais ruas do centro da cidade. O teto é uma pequena proteção contra a chuva no canto da calçada. A luz é a lâmpada do poste da esquina. A janela do seu quarto é a rua, os pedestres, o vento, a geada, o frio.
Nas suas inúmeras sacolas, estão suas roupas e calçados. Em uma delas, fica sua cama: um colchão surrado e rasgado, com a espuma amarela visível. Tem o formato curvilíneo, o que indica ser um velho companheiro das andanças de Maria.
Em uma das sacolas, Maria carrega alguns disfarces. Entre eles, uma capa de chuva preta que quase encosta no chão. É sua diversão em noites de solidão.
Era uma noite chuvosa, e a Venâncio estava silenciosa e deserta. Maria observava os pingos no asfalto, que se alternavam entre uma fraca garoa e gotas intensas.
Ao lado do colchão em que estava deitada, em cima da pilha de sacolas, avistou um objeto. Uma pasta que parecia estar cheia. “De onde veio essa pasta?”, pensa Maria, e esfrega os olhos. Na sua distração ao olhar a chuva, alguém deve te-la deixado ali. Um presente de algum generoso? Talvez. Mas o que conteria?
Cuidadosamente, e observando se havia algum malandro por perto, tentou abrir. Uma espiada inicial. Espantada, não acredita no que vê. Para ter certeza, pega as cédulas e analisa uma por uma. Era muito dinheiro.
Feliz da vida e ainda sem acreditar, guarda o maço de dinheiro de volta na pasta. Olha para os lados e se certifica da rua deserta. Se não há ninguém , como e de onde esta pasta apareceu? “Só pode ser presente de Deus”.
Cheia de planos, Maria inventa mais uma de suas brincadeiras. Com a capa de chuva preta, uma gola erguida e um guarda-chuvas quebrado, começa a andar pelas ruas. Assusta um ou outro passante e ri sozinha. A pasta, cheia de dinheiro, debaixo do braço.
Gargalhadas altas. Agora, com dinheiro, poderá pegar de volta sua filha e sustenta-la. Comprar pão, presunto e queijo todas as manhãs. Ajudar os amigos da rua, sentir uma roupa decente, comprar uma casa, conhecer o outro lado do mundo, ser dona da rua inteira. Sorri, pula, comemora e os passantes a estranham. Maria grita.
Assustada, acorda com seu grito. A chuva continua caindo sobre o asfalto molhado e a rua segue deserta. Só se ouvem os pingos de chuva. O céu dá indícios do amanhecer. A capa de chuva que vestia estava molhada. No colchão e em cima da pilha de sacolas, não havia nenhuma pasta. Nem na sua mão, nem nos arredores. Acostumada, Maria caiu em si.
Mais um devaneio para sua coleção.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

epitáfio V

'...
Nunca dei presentes a ela, nunca recebi nada. Não conheci a letra dela, nunca a vi escrevendo. Não sei se sua caligrafia era redonda ou inclinada, legível ou feia, ou se ela colocava bolinhas em lugar dos pingos nas letras. Eu nunca disse que a amava nem a ouvi dizer isso pra mim. Nunca falamos de amor, de filhos, de amantes, de passado. Do futuro.
Ela não me falou sobre sua flor favorita. Sua primeira vez. Ela não perguntou sobre a minha. Não sei se ela acreditava em Deus. Em reencarnação ou em horóscopo. Não sei se ela cozinhava bem ou o prato de que gostava mais. O que achava da moda, ela jamais me falou. Curtia samba? E caipirinha? Qual seu número de sorte? O nome de seus pais, o que ela achava de homens de barba, das loiras, de armas e tatuagens - são coisas que nunca vou saber. Será que, como eu, ela achava que a felicidade é um negócio que inventaram para enganar os pobres, os feios e os esperançosos?
Não sei se tomou drogas um dia ou se era bamba em matemática no tempo da escola. Se gostava de resolver as palavras cruzadas do jornal. Será que ela sabia jogar truco? Teve todas as doenças da infância? (...) Foi assaltada alguma vez? Transou quando na verdade estava a fim de dormir e esquecer? Nunca soube se ela viajou de trem ou de navio. Se teve vontade de matar alguém que um dia amou. Se cortou os cabelos só para agradar a algum homem. Se cortou o pé em caco de vidro quando mais nova. Se em algum momento humilhou alguém e se arrependeu depois. Se pensou em fugir. Se lembrava dos sonhos depois que acordava. Se sonhava. Se sorriu para pessoas pensando em mandá-las à merda. Se sentiu saudade. (...)Terá ela fingido alguma vez que a coisa estava muito boa quando estava apenas morna? Compreendeu o significado da palavra "sacrifício" a tempo?
Será que ela se orgulhou de algo de que deveria se envergonhar? Será que se lembrava da primeira vez que viu o mar? Do primeiro beijo? Será que ela se sentiu digna em alguma oportunidade? E suja? Eu nunca soube o que ela achava da Ioga. Das surubas. E das coisas que assustam quando pensamos nelas. De gente que tem medo de escuro. E de quem sabe que temos escuros dentro da gente. Eu não soube nada disso.(...) E era bom.
No entanto, eu sabia sua altura. Porque ela precisava ficar na ponta dos pés toda vez que nos beijávamos.

EpitáfioV, Marçal Aquino

domingo, 3 de outubro de 2010

a palavra que resta.

Ontem, indo pra casa, vi um homem segurando várias bandeiras de um candidato. Quando vi o senhor, que provavelmente estava com os ombros doloridos pelo peso das bandeiras, me veio uma pergunta na cabeça...
Que motivo teria esse homem pra carregar tanto peso nas costas? Será que ele realmente acredita no cara com o nome estampado naquele pano? O que faz uma pessoa colocar um adesivo no peito, gritar na rua, dedicar tempo e erguer bandeira a um candidato, que sabemos, quando entrar na assembeia ou no palácio, talvez nem lembre do seu rosto? 
O que motiva tanta gente a comprar ideias de uma pessoa que, talvez, mal conhece? Promessa de vida melhor? Ganhar uns trocos a mais carregando bandeira?  Precisa votar para não perder o emprego? Influência? Ou mlitância e ideologia mesmo? E os filiados, que tiram do bolso pra ajudar a sustentar campanhas, o fazem por quê?
É estranho, mas já me perguntei trilhões de vezes... no que essas pessoas acreditam? Já não viram o caos que isso tudo está? Como podem confiar? Ainda conseguem? E que critério usam para saber em quem confiar?

Mais estranho ainda, de repente, me vi numa situação quase que contraditória. Um adesivo. Na carteira, um santinho com a legenda. Uma "quase ideologia". Lá no fundo, uma ponta de... é.
Aí, hoje, no caminho do meu local de voto, comecei a pensar por um ângulo quase egocêntrico. O que mesmo eu estava fazendo? Por que eu estava indo votar, se a política está tão em descrédito e ninguém nesse país é decente? Ah, claro, os deveres.
Mas, no que eu acreditava mesmo? Por que tinha o santinho com todos os votos anotados na bolsa?
 Seria muito fácil anular ou votar em branco. Segundos apenas, e nenhum sacrifício pra pensar. Mas, o que me fez ir até a minha seção eleitoral, digitar 19 números naquela cabine e confirmar?
Fui pelo direito. E por acreditar.
Talvez tudo isso seja motivado por uma única palavra, aquela que o ditado avisa que não morre tão cedo. Talvez, aquele homem que carregava as bandeiras no ombro, também as carregava motivado por isso. Talvez, os rostos expostos com adesivos, faixas e gritos nas ruas, tenham um motivo além do dinheiro que ganham para carregar uma bandeira. E a militância que não ganha nada pra dar a cara a tapa e gritar o nome de candidatos, também deve pensar nessa palavra. Porque em alguma coisa é preciso acreditar. Porque não é possível que não exista decência. Porque não pode estar tudo acabado e jogado às cobras. Tem que ter algum jeito, alguma saída, algum raio de luz. Porque, ali, no fundinho, ainda resta um pouquinho dela. Ela sempre fica, no final das contas. Ela fica e justifica. Talvez seja ingenuidade boba, talvez esperança.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ela fala por mim

Sempre desconfiei que a Martha Medeiros direcionasse as crônicas a mim. Noossa, quanta pretensão, né! O fato é que ela fala a minha língua. Ela traduz o que eu sinto. Parece que desvenda tudo aquilo que eu penso como se tivesse decifrado um pouco de mim, e despeja num texto bem feito.(e sei que esse pensamento é compartilhado por muitas mulheres...)
Por isso, faço das palavras dela, as minhas.


Eu, modo de usar:

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas ... permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida (...). Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça, mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ... Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. (...) Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas.
Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar ... experimente me amar.
Martha Medeiros